Primeira tópica freudiana: pontos de partida para construção da prática psicanalítica

Pressupostos Filosóficas da Psicanálise:

Assim como na psicanálise freudiana, Platão em seus escritos (IV a.C) destaca o compromisso de Sócrates com a necessidade do homem conhecer-se, de modo que a celebre afirmação anunciada no Templo de Apolo, “conhece a ti mesmo”, está fixada como sendo um dever existencial de cada pessoa. Sócrates defendia a tese a fim de propor uma vida mais autêntica, digna (ético) de ser vivenciada. Este intento está para o ofício da psicologia clínica a partir do objetivo de tornar o paciente um escultor de si mesmo, mais consciente (no sentido freudiano).


Em uma vertente diferente da socrática, ou seja, menos transcendente, mais atomista, está Epicuro e Demócrito, os quais lançam a concepção de uma abordagem menos transcendente, neste sentido o ser humano deve fazer as pazes com a natureza, a saber a morte, o destino e a consciência em busca de um estado constante de prazer (ataraxia). Encarar a morte sem o peso da culpa ou neuroses advindas de traumas vivenciados no cotidiano. A psicologia vem fazer uso de uma abordagem mais atomista enquanto epsteme, uma vez que a Psicanalise em seus primeiros postulados, busca uma abordagem mais naturalista. Outro elemento que se destaca e a tarefa do psicanalista que tem por missão levar o paciente a um estado de resolução de conflitos internos que visa estabelecer uma paz de espirito no ser daquele que busca apoio de um analista.
De maneira geral a psicanálise bebe das fontes gregas no tocante a seu objetivo, sua missão em descortinar os conflitos da alma (psique) a fim de resolve-lo à medida que vem auxiliar o paciente em um caminho de reconciliação consigo mesmo (ataraxia) e tomar decisões mais consciente que o ajudarão a construir uma identidade mais autônoma e autentica.
Outro ponto interessante, são as experiências na infância de Freud em seu convívio familiar, de maneira que o biografo e presidente da Associação Psicanalista Internacional, Ernest Jones (1879-1958) postulava que a necessidade de Freud por compreender a psique tem forte raízes nas experiências vivenciadas por Freud no seio familiar, uma vez que o próprio Freud destacou que as decisões tomadas na vida estão ligadas as experiências vivenciadas, assim, nenhuma decisão é desconectada, pois no inconsciente tudo está vinculado, desejos reprimidos, neuroses, e as pulsões (vida e morte). Todo este universo submerso, ora se vê revelado em sonhos, estado hipnótico ou pela livre associação através da fala.
Certamente a gênese da Psicanalise está para além do jovem Freud estudante de Medicina. Está nas experiências familiares vivenciadas na infância e juventude, está no afã da Filosofia de conhecer quem é este ser denominado humano e indivíduo. É obvio que outras ciências também contribuíram para que a psicanalise pudesse vir ao mundo; a Filosofia de Shopenhouer, a Física de Newton, a Biologia de Darwin, a mecânica de Copérnico e o Positivismo e Comte são alguns dos saberes que contribuíram de maneira significativa para as primeiras formulações psicanalíticas.

Neuroses como ponto de partida

Para Reuben Fine(1981), a prática dos estudos psicanalíticos começa com Freud, quando este busca compreender as neuroses ( termo criado por William Cullen para definir distúrbios de personalidade) nos estudos sobre a histeria. Assim no final do século XIX, Freud estabelece um modelo que se divide em dois conceitos, as neuroses atuais e as psiconeuroses.
São neuroses atuais, aquelas que têm sua gênese no momento do aparecimento do sintoma que por sua vez está relacionado com as frustrações sexuais, um exemplo bem apropriado é a neurose de ansiedade (angustia), visto que sua causa está para a estimulação sexual não descarregadas.
Já as Psiconeuroses estão relacionadas com episódios traumáticos ligados sexualidade, tais episódios teriam ocorrido no passado. Algumas destas psiconeuroses são a histeria, à obsessão (ou neurose obsessiva), e às fobias.
De modo geral “todas as neuroses representam uma defesa contra ideias insuportáveis” (FREUD, 1894), desta forma fica claro que os estudos sobre a histeria e consequentemente as neuroses são episódios de suma importância dentro da construção do modelo Psicanalítico freudiano. É obvio que a medida em que os estudos freudianos avançam, alguns de seus postulados ficam obsoletos, pois, são substituídos por modelos mais adequados.

A livre associação:

A “cura pela fala”, termo que surge a partir das observações feitas por Freud junto a sua analisada Sra. Emmy Von N. O fato se deu enquanto Dr. Freud interrompia a fala de Emmy com o intento de auxilia-la, quando Sra. Von N interrompe Freud e afirma “me deixe falar”, nesse momento o pai da psicanalise tem um insight o qual aponta a fala como um instrumento de acesso ao que está no inconsciente.
Segundo Peter Gay (p. 80, 1989) “Ouvir, para Freud, tornou-se mais do que uma arte, tornou-se um método, uma via privilegiada para o conhecimento, à qual os pacientes lhe davam acesso.”. Desta maneira pode-se definir a “livre associação” como o método que se serve da fala como uma via privilegiada que se objetiva na exposição dos conteúdos do inconsciente. Para tal, o analista precisa estar atento aos “sinais” que aprecem nessa via, são elementos carregados de significados, intentos e símbolos que se entrelaçam e se revelam ao analista, quando este está pronto a ouvi-los.
Na prática o analista pede ao analisando que relate aquilo que lhe vier a cabeça, sem coação ou julgamento de valores e a medida que a fala vai sendo exposta, o analista observa cuidadosamente os elementos contido nela.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

De modo geral, a primeira tópica freudiana abre as portas para a interpretação daquilo que nos tornamos. É a partir da primeira tópica que surgem os primeiros conceitos daquilo que compõe o inconsciente e o consciente. As neuroses e os traumas passam por uma análise por meio da livre associação, assim cabe enfatizar a relevância destes primeiros estudos no que tange a construção da prática psicanalítica contemporânea.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

FINE, R; A história da psicanálise. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1981.
FREUD, Zygmunt. Primeiras publicações psicanalíticas (1893-1899) – VOLUME III capítulo:
As Neuropsicoses de defesa (1894).
GAY, P. Freud, uma vida para nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

Tags: Freud,, Psicanálise, Como nasce a psicanálise

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